O falso dilema: salvar vidas ou a economia?

Publicada em 11/12/2020

O falso dilema: salvar vidas ou a economia? O Covid-19 e a pressão do Governador Eduardo Leite (PSDB). Os gaúchos fizeram o que estava ao seu alcance, contribuindo com as restrições impostas pelo Governo do Estado para frear o contágio em massa do coronavírus. Sim, foi preciso haver uma rápida adaptação da população e uma drástica mudança de rotina, que se estendeu a todas as instituições do País. Entre erros e acertos, a principal falha das autoridades governamentais foi propagar um falso dilema criando um impasse dúbio e incorreto, onde, ou salvam-se as vidas ou a economia. Sobre o tema, vimos discussões ferrenhas e bastante controversas entre economistas, médicos infectologistas, influencers, pseudocientistas e políticos. Ao que parece, essa lógica ainda encontra amparo nas medidas governamentais de restrição social no Brasil afora. No Estado do Rio Grande do Sul, que imediatamente após as eleições, retomou a publicação de números alarmantes de crescimento do contágio da doença e hospitalizações, adotando uma série de novas restrições ao convívio social público e privado, percebe-se, novamente, a imposição de ideias sobre o dilema que divide opiniões. O fato é que ainda há dificuldade para compreender a necessidade de haver um equilíbrio nas medidas impostas ao povo gaúcho. O que pretendo fazer aqui é unir algo que nunca deveria ter sido desassociado, vida e economia, a saber, vida e vida.

O Dilema da Pandemia

Contamos aqui com dois imperativos, os sanitários e os econômicos. No aspecto sanitário, as medidas de distanciamento social visam achatar a curva de crescimento da doença e evitar o colapso do sistema de atendimento à saúde, para que vidas venham a ser preservadas. Sobre a perspectiva econômica, tem-se a necessidade de preservar o funcionamento integral das atividades de produção, distribuição e consumo, para que o colapso da economia possa ser evitado e com isso mantido o regular fornecimento de bens e serviços, bem como, principalmente, a manutenção do emprego e da renda.

Alguns fatos da crise

Com as restrições determinadas pelo executivo, vimos um isolamento social que contou com a origem de altos de níveis de ansiedade e depressão na sociedade. Conforme o levantamento feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no primeiro semestre deste ano, em estudo realizado com 1.460 pessoas em 23 estados, os casos de depressão aumentaram 90% no intervalo de pouco menos de um mês, em meio às medidas de isolamento social para combater o novo coronavírus. Também vimos o fechamento de inúmeras empresas do comércio, indústria e serviços, o impacto negativo no funcionamento das escolas e universidades, a criação de hospitais de campanha, o desemprego e as medidas governamentais de socorro à população e às empresas. Na verdade, todas essas ações acabaram por causar consequências bastante impactantes na sociedade em geral. O isolamento social e as restrições de convívio trouxeram uma preocupante elevação no nível de ansiedade, depressão e solidão das pessoas. O colapso econômico gerou a queda de arrecadação e de empregos. A aplicação de gastos extraordinários motivou uma crise fiscal que contou com inadimplementos, cobranças e execuções revisionais, bem como a iminente necessidade de recuperações judiciais e falências, com risco ainda maior de um colapso judiciário, o que levou a novas medidas legislativas para enfrentar o tema. Não bastassem todos esses efeitos danosos, tivemos um cenário de eleições municipais que contou com polêmicas diárias, instabilidade política, defesa de interesses diversos e dificuldades para priorizar demandas urgentes para a sociedade.

De quem é a crise?

A crise é de todos nós. A crise é do pai e da mãe de família, do empresário devedor, do empresário credor, do trabalhador formal e informal, do governo estadual, municipal e federal. A crise é mundial. Cabe aqui uma comparação que encontrei em minhas anotações sobre a empresa em crise. A empresa possui uma espécie de dois relógios, o relógio que mede o movimento financeiro, o cumprimento das obrigações e o relógio que mede o tempo econômico, ou seja, o faturamento aferido. A pandemia fez com que o relógio econômico gire mais devagar ou quase pare, ao passo que o relógio financeiro continua rodando. O relógio financeiro das empresas permanece em curso embora não mais exista o semelhante e necessário rendimento, passando a trabalhar no vermelho.

Cadê a empresa que estava aqui?

É nesse contexto que empresas desaparecem. O descompasso econômico e financeiro, afeta a mesa e o bolso das pessoas. É causa para a falta do salário, do pão, do leite, da carne, das passagens de ônibus. Se as empresas desaparecem, com elas desaparecem os empregos, os tributos, os produtos, os serviços e a circulação de riqueza. Isso é um grande problema, já que as empresas desaparecem não porque se tornaram desnecessárias, ou porque os empresários são maus gestores, mas por causa de uma inadimplência extraordinária e imprevista, decorrente de um fato súbito externo, agravado pelas medidas governamentais pouco inteligíveis, como as impostas pelo governador Eduardo Leite nessa semana.

As medidas do Governador Eduardo Leite (PSDB)

Todo o cenário abordado anteriormente reflete a vida de indivíduos, sua saúde física, mental e social. Lembro-me de um empreendedor que conheci na pior fase do seu negócio. Dono de um bar e restaurante, ele fica horas atrás de um balcão, dividindo-se entre suas duas profissões, planeja e calcula como pagar os empréstimos ao banco. Recordo-me de um amigo, dono de uma pizzaria no bairro da periferia de Porto Alegre, que conseguiu se reerguer por causa do serviço de tele-entrega, carinhosamente apelidado de “boy”. Ele me disse: – o que me salvou, foram a entregas do “boy”. O inacreditável é que o novo decreto do Governador proíbe o funcionamento de drivethru e tele-entrega após as 23 horas. Houve também a determinação para o fechamento de praias e restrição de circulação em parques e locais abertos. Qual é o sentido de restringir a circulação de pessoas ao ar livre? Vejamos o que disse o Márcio Sommer Bittencourt, pesquisador do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da USP (CPCE-USP) e mestre em saúde pública, em entrevista recente a BBC: – A pandemia é uma oportunidade de voltar a fazer, de forma controlada e com fluxo menor de pessoas, atividades que nos acostumamos a fazer em lugares fechados. A gente pode fechar a rua que tenham muitos restaurantes e bares e colocar algumas mesas desses estabelecimentos de forma espaçada nas vias públicas. Isso oferece menos riscos e não diminui tanto o número de clientes. Na mesma direção do médico, temos pesquisas indicando como alternativa o menor fluxo de pessoas nos estabelecimentos, mas não a restrição de pessoas em espaços públicos, nem mesmo a vedação de pessoas em determinados horários. É recomendado que o lazer seja preferencialmente realizado ao ar livre. Outro ponto é que não faz sentido a medida do governador em restringir horário de deliveries, bares e restaurantes. Por óbvio, restringir horário para funcionamento de estabelecimentos acaba por incentivar a aglomeração de pessoas nos horários anteriores. Resumidamente, tivemos como propósito demonstrar que saúde e economia são intrínsecas ao indivíduo e à sociedade como um todo e que, por isso, são inseparáveis e vitais em igual proporção. O Governador Eduardo Leite precisa compreender essa dinâmica e essa relação de interdependência que alguns setores da sociedade possuem entre si. Há que considerar, inclusive, o fato de que assim como hoje ele governa, amanhã pode não mais governar, mas o dano provocado em seu governo permanece e pode arrasar gerações e causar danos irreparáveis. Já superamos o falso dilema. Já percebemos que a saúde e a economia são igualmente importantes e indivisíveis numa sociedade que deseja se manter íntegra, forte e próspera. Agora precisamos superar a crise com medidas inteligentes, equilibradas e razoáveis.

 

Por: Sâmila Monteiro

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