As escolas Tiradentes da Brigada e o modelo Cívico Militar

Publicada em 25/08/2020

As escolas cívico militares estão em franco debate, no Brasil e aqui no Estado. O modelo está sendo difundido em todo o país e estão sendo criadas escolas nestes moldes. O resultado das provas do Enem de 2019 mostrou que entre as dez escolas estaduais com melhores desempenhos na prova objetiva, sete são os Colégios Tiradentes da Brigada Militar. Este destaque colocou em evidência as escolas e tem servido de subsídio para os que defendem que este modelo deveria ser adotado de forma extensiva no Estado inclusive argumentando que seria a saída para a melhoria do ensino no país.

As Escolas Tiradentes são escolas públicas Estaduais de Ensino Médio, sob administração da Brigada Militar. O acesso dos alunos se dá por concurso público com prova teórica, exame físico e médico, com vagas específicas para filhos de Policiais Militares e Bombeiros Militares e vagas para o público em geral. Temos no Estado sete escolas Tiradentes nos municípios de Porto Alegre, Santa Maria, Passo Fundo, Pelotas, Ijuí, Santo Ângelo e São Gabriel. Muitos atribuem o desempenho aos seguintes quesitos: disciplina, meritocracia e maior carga horária, no entanto, por conhecer a instituição, vários ex-alunos e professores, considero que estes atributos são alguns fatores e os resultados vistos podem ser atribuídos a outros elementos ainda pouco considerados que merecem compor o debate.

A discussão sobre este tipo de escola se torna mais acirrada pela polarização da política no nosso país e neste contexto deixa-se de fazer uma análise mais profunda sobre o tema. Em uma visão superficial parece que por terem uma orientação cívico militar, a hierarquia e disciplina presentes, são os elementos que por si só garantiriam os melhores resultados, no entanto, embora ciente da importância destes elementos para a formação, tendo, a partir de uma visão crítica, propor a avaliação de outras características presentes no contexto destas escolas que são sistematicamente desconsideradas.

É fundamental destacar inicialmente o corpo docente dos Colégios Tiradentes da Brigada Militar, constituído por professores da Secretaria Estadual de Educação, servidores públicos, que além de ministrar os conteúdos previstos na lei de Diretrizes de Base da Educação e exigidos dentro dos Planos Estaduais, dedicam-se a formação integral dos alunos apoiados pelos Policiais Militares encarregados do Corpo de Alunos o que favorece o clima escolar. A estrutura do Corpo de Alunos conta com os Policiais Militares no ensino de ritos e práticas da vida militar e na disciplina que é reforçada pela reprodução do sistema de hierarquia entre os alunos. O Batalhão escolar é de condução dos alunos do 3º ano, desde a inclusão é exercitada a liderança, a responsabilidade e o trabalho em equipe. Durante todo o curso os alunos atuam em funções de comando, atividade exercida com rotatividade visando à formação de um cidadão apto a gerenciar as diversas situações do quotidiano, desenvolvendo com estas vivências o espírito critico. Neste contexto de bom clima escolar também impera a segurança e respeito à autoridade do professor que se sente valorizado e consegue desempenhar a docência de forma mais efetiva, o que também se reflete no desempenho dos alunos.

O aluno que se destaca pela sua excelência acadêmica e humana funciona como referência e inspiração para os demais alunos. Esta excelência não depende exclusivamente do desempenho em notas, é exigido do aluno o desenvolvimento de competências correspondentes àquelas esperadas de um bom militar, tais como liderança, técnica – aqui traduzida por notas altas, ética, boa conduta demonstrada pela correção de atitudes e urbanidade. Em reconhecimento a este destaque entre outras coisas, o aluno recebe distinção visível através de ornamentos no fardamento. Estas atividades comuns nas instituições cívico-militares há anos, são similares a tão elogiada “gameficação” da educação que, por diversos mecanismos, contribui para o engajamento do aluno e por conseguinte para os bons resultados. Outro aspecto importante a ser considerado é o fato do aluno estar no colégio por opção, se esforçam para passar na prova seletiva, um concurso público, sabendo que o grau de exigência intelectual durante as aulas é elevado, pois a média para aprovação é sete, com um rigor disciplinar, a exigência de andar fardado, o rigor de cumprir horários, e principalmente uma atividade extra sala de aula que lhes dá a parte militar. Sendo assim existe um engajamento prévio possivelmente oriundo de diversos fatores, entre eles: orientação familiar, desejo de aprovação em vestibular, interesse em um ambiente seguro, boas referências por parte de parentes e amigos ou outros fatores. O importante é destacar que, em geral, o aluno quer estar no Colégio Tiradentes e, ao se preparar para tal, torna-se protagonista do seu processo educativo. Não é possível desconsiderar o papel deste protagonismo e deste engajamento nos resultados alcançados por estes jovens.

Outro grande motivador para o desempenho dos Colégios Tiradentes é o sentimento de pertencimento, que é a sensação de fazer parte de uma equipe, de um time com objetivos comuns, gerando entre a equipe um estimulo maior para que todos possam crescer. Este sentimento não é somente dos alunos, é o sentimento de todos que trabalham nos colégios, que pode ser percebida pela satisfação relacionada ao destaque no desempenho do Enem. A vibração, a torcida e o orgulho são vivenciados por toda a comunidade escolar e amplamente manifestados não só em relação ao ENEM, mas as demais atividades do colégio que vão desde atividades esportivas, culturais, até o momento ápice do civismo que são os Desfiles Cívico Militares que ocorrem em setembro.
É importante perceber que, salvo os ritos e práticas militares, todas os demais aspectos elencados, a saber: acolhimento, desenvolvimento de liderança, disponibilidade de conteúdo, esporte, lazer, música, segurança, respeito, protagonismo, engajamento e pertencimento, podem estar presentes em todas as escolas. Infelizmente a polarização do debate não permite a avaliação de evidências. Os que são contra a escola cívico-militar enxergam apenas os uniformes e os ritos e consideram como aspectos ruins. Os demais elementos aqui trazidos não são evidenciados. Destaco que pontos semelhantes podem ser observados em outras escolas em outros tempos. Inclusive, tivemos no passado, importantes e diversificados exemplos, como as escolas Júlio de Castilhos – o Julinho, o colégio Aplicação e o Instituto de Educação e outras. Todas escolas públicas com orientações diferentes e que por anos foram destaque na educação do país. O que tinham em comum com as cívico-militares? O acolhimento, engajamento, identidade.
Os resultados de ENEM, IDEB e outras métricas nos mostram que, o que temos não está dando conta nem da formação acadêmica de nossos jovens, quem dirá de uma educação integral, inclusiva, capacitadora e cidadã. A escola não deve ser vista apenas como uma passagem para o ensino superior e sim como um espaço de convivência, socialização e formação de competências. Não existe desenvolvimento, saúde e segurança sem educação. A escola pública, como ela se apresenta no momento, não parece capaz de promover o desenvolvimento de cidadãos plenos de direitos e deveres. Sendo assim cabe louvarmos a implantação de escolas cívico-militares, mas é urgente que façamos um debate profundo no sentido de qualificar o ensino público como um todo, garantindo aos nossos jovens condições plenas de ensino-aprendizagem e crescimento em todas as escolas independente do modelo adotado. Disto depende o futuro do país.

Escrito por: Coronel Ikeda

Coronel Ikeda

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